sexta-feira, 21 de julho de 2017

Ruy Fausto: "Lula não é a melhor opção para a esquerda"

Cilene Pereira - IstoE


O filósofo paulistano e professor emérito da Universidade de São Paulo Ruy Fausto é um dos um mais conhecidos pensadores da esquerda brasileira. Considerado um dos maiores especialistas nas ideias de Karl Marx, autor da obra “O Capital”, referência do pensamento anticapitalista, nos últimos tempos ele dedica parte de sua atenção à análise dos equívocos e do futuro do pensamento progressista no mundo. Um belo apanhado de suas reflexões está reunido no livro “Caminhos da Esquerda, elementos para uma reconstrução” (Cia. das Letras), lançado recentemente.
Lá está registrado de que maneira aspectos como o autoritarismo e a prática da corrupção por governos esquerdistas macularam as históricas bandeiras de igualdade e ética da ideologia e o que pode ser feito para restituir seu diálogo com uma sociedade cansada da política. Um dos caminhos seria estimular a entrada no cenário do que chama de movimentos da inteligência. “São formados por uma classe média pensante, progressista e crítica. Ela existe e é poderosa”, disse na entrevista a seguir.
Quais os principais erros da esquerda?
O totalitarismo foi a grande patologia da esquerda. Havia um partido que já era autoritário, a ala bolchevique do Partido Operário Social Democrata Russo, que deu origem a um governo muito autoritário. Depois, foi-se do leninismo (referente ao líder russo revolucionário Lenin) ao stalinismo (Josef Stalin, que comandou a União Soviética durante 32 anos após a morte de Lenin), com um totalitarismo medonho que matou milhões e comprometeu o nome da esquerda.
E os outros?
Houve o que chamo de adesismo, referente a aqueles que dentro da esquerda aderiram ao sistema. Isso veio da social democracia, mas não de toda ela, claro. Porém houve homens de esquerda que adotaram políticas econômicas de direita, como o ex-primeiro-ministro trabalhista inglês Toni Blair. O terceiro equívoco é o populismo, baseado em carisma do líder, no autoritarismo, na leniência com a corrupção e em uma política de conciliação de classes que se fez de forma discutível.

A esquerda brasileira se encaixa em qual destas categorias?
Para o caso do Brasil, o PT entraria na família do populismo, embora de uma forma atípica. Faltou ao ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva o caráter autoritário, mas ficou a ideia de conciliar classes. Ele fez um governo para os mais ricos e para os mais pobres, o que não foi absolutamente condenável. E o partido se comprometeu com os problemas de corrupção. Isso foi o mais grave, o desastre total. Eles adotaram uma política de redistribuição de renda reconhecida, mas entrou-se num processo de promiscuidade entre o Estado, as grandes empresas e o bolso dos dirigentes.

O sr. falou da política de redistribuição de renda adotada pelos governos Lula e da ex-presidente Dilma Rousseff. Porém o Brasil continua sendo um dos países com maiores índices de desigualdade do mundo. Como explica isso?
Lula e Dilma deveriam ter pensado em primeiro lugar na reforma fiscal que o País precisa. A tributação no Brasil é muito injusta. Mesmo os economistas liberais estão de acordo que o imposto aqui é alto para os pobres. E no governo Dilma houve erros de todo tipo. Ela ajudou empresários em iniciativas que implicaram enormes gastos de Estado, mas sem vantagens para o País porque não geraram mais emprego, nem maior produtividade.

O PT mantém a narrativa de que é vítima de uma perseguição da Justiça e das elites. O que o sr. acha disso?
O partido não faz auto-crítica. Se fizesse, mudaria tudo.
Por que insistem em não reconhecer seus erros?
Os dirigentes do partido são um obstáculo. Não tenho nenhuma confiança neles.
O PT hoje é um empecilho à reconstrução da esquerda no Brasil?
A política atual da direção do PT não serve à esquerda. É verdade que o partido não morreu e o Lula tem prestigio. Espero que ele não seja condenado, mas, para mim, Lula não é a melhor opção para a esquerda. Jogar a carta no ex-presidente é jogar a carta no PT atual, que não tem legitimidade. São burocratas de partido, que sacrificaram os melhores deles. Temos que pensar em outros caminhos.
Quais, por exemplo?
É preciso mobilizar muita gente solta.
O que é essa ‘gente solta’?
Está cheio de gente de esquerda, por exemplo, que não é nem PT, nem Psol. Coloco fé em novos movimentos da sociedade civil. Existem movimentos sociais da periferia, de sem-teto etc. Mas precisaria haver movimentos sociais da inteligência.

O que seria a ‘inteligência’”?
É a classe media pensante, progressista e crítica. Ela existe e é poderosa. Considero-me alguém desse tipo. E parar com essa história de ter de ser de partido. Quando as direções partidárias são o que são hoje, é preciso mobilizar essas outras forças. Os partidos falam como se fossem os donos da bola. Não são. Eles têm força, mas se desmoralizaram muito, com todo o respeito que tenho por figuras do próprio PT e do Psol, por exemplo.
O que há de concreto na mobilização dessas forças?
Há embriões disso, porém muito mal-vistos pelo partidos. Mas somos mais fortes. Os movimentos não carregam as taras que os partidos têm sobre si. E muita gente quer esse tipo de ação como alternativa.

O sr. descreve um processo parecido com o que levou Emmanuel Macron à presidência da França, bastante ancorado em representantes da sociedade civil.
Ele catalisou um pouco isso. É um fenômeno surpreendente, que em um ano ganhou apoio e chegou à presidência da França. Mas o enxergo ainda com cautela, para ver no que vai dar. O programa de governo dele é o de um liberal moderado, quase todo favorável ao que querem os patrões.

Quais são as características de um bom candidato da esquerda para a presidência, em 2018?
Ele tem que ser um candidato razoável. É importante que seja democrata, que não tenha compromissos com nenhuma dessas características da esquerda de populismo, autoritarismo ou adesismo. E que apresente um programa político em que se dê papel ao Estado, mas não só isso: que desse estímulo às cooperativas, que cuidasse seriamente de uma reforma fiscal e política e que assegure importância à ecologia, por exemplo. Deveríamos abandonar o programa nuclear. A Alemanha e a Suíça abandonaram. O Brasil não precisa disso.

O que o sr. acha do silêncio de muitos expoentes da esquerda diante de governos autoritários como o de Nicolás Maduro na Venezuela?
Isso é um desastre. Espanto-me que tenha gente boa por aí citando a Venezuela como um exemplo. Se a esquerda lançar uma campanha para eleição afirmando isso, não vai ganhar. Para vencer eleição é preciso falar para ampla margem da população. Não dá para ficar pensando que o problema é o preconceito da classe média etc. Há uma reação contra esses tipos de governo, de bom senso da opinião progressista de dizer não a isso. Quem quer um governo do tipo do de Fidel Castro, em Cuba, ou de Nicolás Maduro? Isso acabou. Não tem mais futuro.
O discurso progressista não convence mais?
A esquerda não foi capaz de oferecer uma alternativa racional para quem quer pensar, para quem deseja respostas aos problemas, para quem não gosta de slogan. É preciso ganhar as pessoas.

Como seria possível fazer isso hoje?
É necessário introduzir racionalidade aos debates. Há muita insistência da esquerda em focar na paixão. O populismo cresceu muito nessas bases. É claro que a política tem um elemento retórico, tem a ver com paixão. Mas na base disso é necessário que exista um discurso racional. O totalitarismo é a negação da liberdade, o adesismo, da igualdade. O populismo é o peso da irracionalidade e a recusa da ética. Precisamos de uma bandeira racional e ética. Hoje há um abismo entre a sociedade e a política. Isso é muito perigoso. Fico muito assustado quando vejo jovens encantados com o Jair Bolsonaro (deputado do PSC defensor de ideias ultra-conservadoras que cresce nas pesquisas eleitorais sobre possíveis candidatos à presidência do País na próxima eleição).

O sr. teme muito a sua ascensão?
Sim. Ele cresce também com certo apoio de setores das classes média e alta. Temos que responder a isso.

De que maneira?
Tomando posições, não falando de governos como o do Nicolás Maduro, Hugo Chávez (ex-presidente venezuelano) e coisas do tipo. Conversando com a classe média, que é demonizada pela esquerda.

Sem estratégias como essa, o País corre o risco de abrir espaço para líderes como Bolsonaro ou à moda do presidente americano Donald Trump?
Sim. O presidente Trump faz um governo tresloucado, populista, de extrema-direita, inteiramente irresponsável. Ele é um risco para o mundo. Veja o que ele fez em relação ao ambiente, tirando os Estados Unidos do Acordo de Paris. Ele não acredita no problema ambiental. E se continuarmos adotando as mesmas posturas no cuidado com a ecologia, em cinquenta anos o mundo sofrerá as consequências.

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