quinta-feira, 13 de julho de 2017

"Minha velha Nova York", por Zeca Camargo

Mary Altaffer/Associated Press
Vista de Nova York com o edifício Empire State à esquerda
Vista de Nova York com o edifício Empire State à esquerda


"Acabo de ler 'The Bonfire of the Vanities' ('A Fogueira das Vaidades'), romance de Tom Wolfe, muito recomendado por Paulo Francis. Mesmo que eu não conhecesse Nova York, e estivesse assim interessado em ganhar a bolsa de trabalho para morar lá, o livro tem elementos suficientes para seduzir quem se interessa um pouco por comportamento."

Assim escrevia um certo aspirante à vaga de correspondente júnior em Nova York por esta mesma Folha em 1988 –no caso, este mesmo jornalista com três décadas de profissão que agora vos escreve. Encontrei esta "relíquia pessoal" numa arrumação radical das minhas gavetas, o que inevitavelmente trouxe lembranças da cidade onde mergulhei tão profundamente quase 30 anos atrás.

A carta, um pré-requisito então para a seleção, tinha a missão de justificar o interesse do candidato em tudo que a cidade poderia oferecer. E ela cumpriu seu papel, uma vez que semanas depois de escrevê-la eu já descia de um táxi, numa gélida manhã, ao pé das escadas de um viaduto que me levaria ao endereço que o motorista mal-humorado (e que me cobrou literalmente o dobro da tarifa normal do aeroporto JFK a Manhattan) não encontrava: 

Tudor City Place.

Qualquer carta do passado é uma porta aberta para a memória –uma madeleine de Proust esperando uma mordida. Claro, não resisti: comecei a comparar as várias "Nova Yorks" que conheci.

Minha estreia na cidade foi em 1981, viajando com minha mãe e meus irmãos num tórrido verão de descobertas. Vi minha primeira praça na Broadway ("Evita"), comprei bugigangas em Times Square, fiz uma desastrosa visita à estátua da Liberdade e embarquei em uma corajosa expedição (a pé) do meu hotel (Sexta avenida com rua 54) até a "terra incognata" do Soho nessa época -tudo para procurar uma loja que era o auge do moderno chamada Parachute (que, sim, já não existe mais). Posso dizer que fui feliz nessa Nova York.

Oito anos depois eu já atravessava o verão da cidade como um local -ou pelo menos eu achava isso. Demorei quase dois meses para tomar coragem de enfrentar o metrô –é verdade. Mas logo depois já encarava "novas terras incógnitas" como Alphabet City (ia ouvir música no Pyramid Club, em Tompkins Square) e Meat Packing District (dançava no Mars), onde tudo que você sonhava era poder comer um hambúrguer no Florent... Ia à ópera com o Francis no "Met", tinha passe livre (de jornalista) para entrar no MoMA e fazia uma peregrinação semanal à Tower Records downtown –onde meu orçamento me permitia comprar só um CD a cada visita. E digo: fui bem feliz nessa Nova York também.

Múltiplas visitas à cidade pontuaram os anos 1990 e a primeira década do século 21. Teve a época do namoro em Chelsea, o auge do Soho, abandonei uptown, apaixonei-me (brevemente) por Union Square, arrisquei-me no Brooklyn –e fui, a cada viagem dessas, reescrevendo minha paixão por Nova York.

A passagem mais recente por lá foi em abril de 2015. Vi uma mostra de Basquiat; comi no Momofuku Ssäm; visitei o ateliê de Francesco Clemente; vi Elisabeth Moss e Jason Biggs no Music Box Theater; comprei livros na McNally Jackson e roupas na Opening Cerimony; encontrei Patti Smith sem querer no West Village. E fui, como sempre, feliz.

A ironia dessas lembranças todas é que há dois anos meu visto para os EUA expirou –e curiosamente eu estou sem a menor pressa de renová-lo. Como aquele jornalista de 25 anos, este de 54 ainda "se interessa um pouco por comportamento"... De longe observo as "Nova Yorks" que as pessoas visitam e me contam –e sinto saudades. Mas nada que me inspire a mudar meu status. Sigo sem visto –e, garanto, não menos feliz...

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