quarta-feira, 5 de julho de 2017

"Feliz aniversário, Estados Unidos. E obrigado por existir", por Leandro Narloch

William Volcov/Brazil Photo Press
Vista da estátua da Liberdade, em Nova York, nos Estados Unidos, durante a queima de fogos do Réveillon 2017, neste domingo (1)
Vista da estátua da Liberdade, em Nova York, durante a queima de fogos do Réveillon 2017

Folha de São Paulo

Não tivéssemos tantos feriados no Brasil, deveríamos criar mais um para comemorar a data de ontem, 4 de Julho, dia da Independência dos Estados Unidos.

Está meio fora de moda reverenciar os grandes e poderosos —muito mais atenção se dá hoje em dia às minorias, aos fracos e oprimidos. Também é impensável criar uma comemoração oficial para louvar uma nação que não a nossa. Pois deveríamos deixar esses recalques de lado e exaltar, reverenciar e agradecer a existência dos Estados Unidos.

Esqueça Donald Trump e as trapalhadas cometidas pelo Estado americano. Pense no espírito americano, nas ideias e nas inovações que o país legou ao mundo.

Os americanos inventaram a lâmpada elétrica, o telefone, a linha de produção, a televisão, o computador pessoal, a internet, o Google, o Facebook, o "Seinfeld", o avião (não me venha com a historinha daquele brasileiro com nome de aeroporto). Popularizaram o petróleo, esse líquido mágico que salvou baleias da extinção (São Paulo e muitas outras cidades do mundo usavam óleo de baleia para alimentar os lampiões da iluminação pública).

Criaram o Viagra, que "fez mais bem à humanidade que 200 anos de socialismo", como diz o Pondé. Se hoje você não precisa acordar de madrugada para aliviar a úlcera comendo mingau, como fazia Nelson Rodrigues, é porque os americanos inventaram o omeprazol nos anos 1980.

É verdade que muitas dessas invenções não são fruto de americanos, mas de estrangeiros que imigraram para lá. Mas isso torna o país ainda mais admirável. O que faz dos Estados Unidos os Estados Unidos não é nenhuma superioridade genética, mas um ambiente de instituições e ideias em que o talento vale mais do que o sobrenome, em que as pessoas podem mostrar o seu melhor e ser recompensadas por isso.

Como diz um poema gravado na Estátua da Liberdade, "deem-me os cansados, os pobres, suas massas apinhadas, que anseiam por respirar a liberdade. Faremos com eles um grande país". Mais que uma nação, a América é uma ideia.

Mesmo o leitor de esquerda há de louvar os Estados Unidos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi inspirada na Declaração dos Direitos de Virginia, de 1776. O movimento negro brasileiro deve muito mais a Martin Luther King que a Zumbi dos Palmares ou a Joaquim Nabuco. A contracultura e a nova esquerda também nasceram por lá, assim como as ideias de John Rawls, o teórico mais consistente da esquerda atual.

Não foi à toa que o Marquês de La Fayette, líder moderado da primeira leva de revolucionários franceses, deu a chave da Bastilha de presente a George Washington, em 1790. Sabia muito bem que os americanos eram seus pais ideológicos.

Costumamos contar a história do Brasil de um modo provinciano, atentos somente a líderes, revoluções e rupturas que ocorreram dentro das nossas linhas imaginárias. Mas a influência americana mudou muito mais a nossa história que figuras ilustres a quem reservamos feriados nacionais.

Feliz aniversário, Estados Unidos. E obrigado por existir.

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