sexta-feira, 14 de julho de 2017

Estudo traça correspondência entre 3 padrões de 'selfies' e atitudes dos sexos, por João Pereira Coutinho


Tiziana Fabi/AFP
Mulher tira 'selfie' ao jogar moeda na Fontana di Trevi, em Roma
Mulher tira 'selfie' de cima para baixo ao jogar moeda na Fontana di Trevi, em Roma


Folha de São Paulo


Outro dia, chegava em casa e parei o carro antes de entrar na garagem. Uma moça de 20 anos, talvez mais, talvez menos, tirava "selfies" nas escadas do prédio. Em todos os ângulos, em todas as posições. Com sorriso, sem sorriso, boca aberta, boca fechada.

Contemplei. Não pelos motivos lascivos que ocupam a cabeça do leitor impuro. Razões sociológicas –juro, juro. O cenário era anônimo. Não havia ali nenhuma paisagem, nenhum monumento. Nenhuma ocasião festiva a merecer consagração póstuma. A moça, na sua solidão e em plena via pública, posava para ela própria.

Foi então que os nossos olhares se cruzaram. Bem sei que o leitor impuro é incapaz de ler essa frase na maior inocência. Mas houve inocência –juro, juro: depois de me ver, ela continuou com as suas poses. Não por provocação ou divertimento. Para ela, tirar "selfies" era tão natural como caminhar ou olhar uma vitrine. Para ela, eu nem sequer estava ali.

Como explicar, digamos, a psicologia do momento?

Nem de propósito. Dias depois, em artigo intitulado "The Psychology of Selfies", o psicólogo David Ludden partilhava na revista "Psychology Today" um estudo sobre o tema.

Conta ele que cientistas da Universidade da Flórida conseguiram encontrar três padrões de "selfies": "selfies" frontais, "selfies" de baixo para cima e "selfies" de cima para baixo. Sim, há universidades que financiam isso. Mas esse não é o ponto –um pouco de paciência, por favor.

O ponto é que os três "paradigmas" (peço desculpa pela palavra) parecem corresponder a atitudes uniformes dos sexos. Quando um homem tira uma "selfie" de baixo para cima, ele se coloca numa posição dominante –e os destinatários são sempre masculinos. Quando um homem tira uma "selfie" frontal, ele mostra empatia, apoio, solidariedade –e os destinatários são sempre femininos. Pelo visto, os homens não tiram "selfies" de cima para baixo. E entre as senhoras?

Afirmativo. Quando a "selfie" é tirada de cima para baixo, ela se coloca numa posição submissa –para os homens. Quando a "selfie" é frontal, é para partilhar com as amigas. Inversamente aos homens, as mulheres não tiram "selfies" de baixo para cima.

Teoricamente, nada disto provoca espanto. Qualquer cinéfilo seria capaz de antecipar a teoria. Basta olhar para o cinema "clássico" e recordar a sua sucessão de "plongées" e "contre-plongées", ou seja, planos de cima e planos de baixo. Os primeiros colocam o personagem em situação de inferioridade, submetido aos caprichos da narrativa. Os segundos invertem esse sentido, consagrando a majestade do herói.

Acontece que o estudo não é meramente teórico. Os pesquisadores testaram a hipótese: separadamente, convidaram homens e mulheres para umas sessões de "selfies".

Quando os homens eram informados que o público seria feminino, os retratos eram frontais. Quando as mulheres eram informadas que o público seria masculino, era de cima para baixo. O resto também conferia: "selfies" masculinas de baixo para cima, só quando havia outros machos. "Selfies" femininas frontais, só para as amigas.

Uma leitura apressada diria que biologia é destino: inconscientemente, habita ainda em nós o velho macaco, e a velha macaca, com suas manhas de sobrevivência e reprodução. O título da seção do prof. David Ludden ("Talking Apes", macacos falantes) parece apontar nesse sentido.

Aconselho prudência nas conclusões, até para não provocar achaques em feministas fanáticas. O estudo, como é óbvio, tem uma falha: ninguém perguntou às moças que tipo de "selfie" elas tirariam se o destinatário fosse um homem de meia-idade que as observa do interior de um carro.

Suspeito que a máxima "as mulheres não tiram 'selfies' de baixo para cima" deixaria de ter validade universal.

Selfie do Oscar – Reprodução/Twitter/@TheEllenShow

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