quinta-feira, 6 de julho de 2017

Cresce adesão dos mais pobres contra chavismo

Fabiola Zerpa e Andrew Rosati - BLOOMBERG - O Estado de S.Paulo


Manifestações ruidosas estão surgindo em bairros mais pobres, 

que eram baluarte do conturbado presidente Maduro



Em Caracas, ricos e pobres estão subitamente menos divididos. Durante boa parte do experimento socialista de duas décadas na Venezuela, a casta mais rica e branca da cidade tem sido o caldeirão do sentimento antigoverno. Mas manifestações ruidosas estão surgindo em bairros do oeste, mais pobres e mais tranquilos, até então baluartes do conturbado presidente Nicolás Maduro à medida que a criminalidade se multiplicava e os remédios e alimentos se tornavam escassos e caros.
Moradores em bairros como La Candelaria, a quarteirões de distância do palácio presidencial de Miraflores, ergueram barricadas e gritaram slogans contra o governo Maduro, batendo panelas de dentro de suas casas. A última vez que os venezuelanos montaram amplos protestos antigoverno pedindo a saída de Maduro foi em 2014.
protestos na Venezuela
Manifestantes da oposição enfrentam policiais em Caracas  Foto: AFP PHOTO / JUAN BARRETO
Desta vez, a oposição ganhou um apoio internacional significativo. E dentro do país defecções importantes do partido governante e tumultos mostram que Maduro pode estar perdendo elementos da base que sustentou a ideologia socialista face à pobreza.
O lado leste de Caracas, relativamente próspero, onde manifestantes se reúnem quase diariamente, abriga metade de uma dezena de shopping centers, um pequeno distrito financeiro e enclaves de alta classe média. O lado oeste é mais antigo, mais aguerrido, mais pobre e mais perigoso. Ele abrange o centro histórico onde ficam o palácio presidencial e os ministérios públicos do governo e onde ficam os bairros operários e o grosso das habitações governamentais. É também o local de muitas favelas da cidade.
Em algumas áreas, membros de coletivos governistas circulam para monitorar os movimentos dos líderes oposicionistas. Em outras, assumiram o controle dos edifícios, intimidando e ameaçando os moradores quando eles não seguem as políticas governistas. Mas enquanto a desconfiança persiste entre os moradores do lado oeste a respeito dos motivos da oposição e de seu futuro sob um novo governo, a raiva frequentemente se sobrepõe à dúvida e ao medo.
Jean Carlos Gomes, de 35 anos, um vendedor de manga no bairro da classe trabalhadora de La Vega, disse que sua casa está sem gás há alguns meses e sua família passou a usar madeira para cozinhar. “Aqui não temos faixas nem marchas”, ele disse. “O povo protesta quando não tem opções. É loucura.”
Para Maduro, é uma tendência preocupante. Mesmo quando a popularidade generalizada do seu antecessor e mentor Hugo Chávez afundou no último ano de sua vida, os pobres do país permaneceram intensamente leal a ele. Maduro está se desgastando com essa base enquanto a infraestrutura fracassa e a economia baseada na riqueza do petróleo mergulha num caos. 
Serviços estão abalados em Caracas, particularmente nas favelas e nos arredores da capital. Os dutos de água ficam secos durante dias, o lixo apodrece ao ar livre e a iluminação apaga em razão da rede elétrica envelhecida. O ponto de virada foi a falência do programa de alimentação da vizinhança. As entregas são esporádicas e registros de corrupção são enormes. 
“Somos pegos de surpresa quando acontece”, disse Misleidy Gonzalez, de 21 anos, que tem dois filhos e trabalha como faxineira para sobreviver. Anos atrás, o bairro alardeava os armazéns de comida do governo abastecidos com generosos subsídios. “Antes você tinha de esperar horas, mas conseguia achar alguma coisa”, disse Misleidy. “No último ano, até esperei numa fila de grávidas. Agora não tem nada, só as sacolas.”/ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
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