quarta-feira, 5 de julho de 2017

"Como os tucanos bicam e desafinam", por Aloisio de Toledo César

O Estado de São Paulo


Dizem que perder eleição é tão ruim como levar 

o fora de uma mulher muito bonita



Velhos ensinamentos que nos acompanham desde a infância, desde a adolescência, desde a universidade, de repente afloram em nossa mente com surpreendente vigor e nos ajudam a tentar entender certos mistérios da vida, em especial quando presentes interesses contrariados. Por exemplo, a chicotada que o ex-presidente Fernando Henrique Cardozo deu no prefeito de São Paulo, João Doria, dias atrás, acusando-o de fazer sucesso porque manipularia as redes sociais o dia inteiro, faz lembrar o que dizia G. W. Hegel, filósofo prussiano, a respeito da eterna luta entre o velho e o novo, sempre com a vitória do novo.
Seguidor de Hegel, Karl Marx também repetia que na dialética é inevitável a ocorrência da luta, que se dá em todo estágio de desenvolvimento sempre entre o velho e o novo – e o novo inevitavelmente triunfa. Assim, como o feudalismo vencera a escravidão, no inexorável curso da História o socialismo substituiria o capitalismo e permitiria o surgimento da sociedade sem classes e, numa etapa final, o desaparecimento das diferenças nacionais.
Fernando Henrique encantava os alunos da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo quando discorria sobre a sedução marxista e, posteriormente, se destacaria como senador e presidente da República, mudando a cara do Brasil. Porém neste momento parece que anda meio esquecido daquilo que ensinava na escola, ou seja, da velha lição de Hegel e de Marx sobre a inevitabilidade da luta entre tese e antítese, o velho e o novo.
De fato, ao lançar críticas desnecessárias contra um companheiro de partido político Fernando Henrique deixou a impressão de que não se alegra por ver no jovem prefeito um possível e futuro candidato a presidente da República.
Em verdade, a vitória consagradora de Doria nas urnas para a Prefeitura talvez faça Fernando Henrique lembrar-se de fatos de sua própria carreira, quando disputou o mesmo cargo, em 1985, para suceder a Mário Covas. Naquela ocasião, teve a infelicidade de se sentar na cadeira de prefeito antes da eleição e seu opositor, Jânio Quadros, ao vencer e assumir o cargo mandou desinfetá-la. São crueldades de que somente o Homo sapiens é capaz.
Surpreende agora que, em vez de estimular e facilitar a aproximação de João Doria, seu aliado, do PSDB, Fernando Henrique o fustigue com a acusação de que estaria fazendo sucesso apenas por manipular as redes sociais o tempo todo.
A velocidade de informação no mundo contemporâneo é a cada dia mais surpreendente e propaga a impressão de que estamos apenas no início desse processo, sujeito sempre a novidades e evoluções. Alguns políticos e administradores se adaptaram a essas modificações e veiculam com rapidez as suas realizações, fazendo uso das redes sociais, frequentadas diariamente por milhões de pessoas. Isso não custa nada e tem um retorno extraordinário.
Os dois políticos paulistas que mais fazem uso dessas redes de comunicação são o governador Geraldo Alckmin e o prefeito João Doria. A cada realização, mesmo pequena, Alckmin grava algumas palavras dirigidas aos paulistas, assim como se estivesse tão somente prestando contas. Ele faz isso de forma discreta, talvez para não passar a impressão de que esconde uma conduta política.
Na mesma linha, João Dória também usa as redes sociais e costuma obter extraordinário retorno, medido pelo número surpreendente de pessoas atingidas pelas mensagens. Homem de comunicações, com boa experiência nessa área, ele talvez esteja olhando não para o que faz no presente, e sim para o futuro.
Não há duvida de que o prefeito paulistano é leal ao seu padrinho político, Geraldo Alckmin, e que ambos caminham juntos, com diferenças pouco relevantes a respeito de temas administrativos. Mas Doria é homem com luz própria, anda com as próprias pernas e com certeza visualiza aonde pretende chegar.
É curioso observar que esses dois políticos do PSDB, os únicos que conseguiram votação consagradora, não mereçam um estímulo maior da parte de Fernando Henrique, ainda hoje o principal nome daquele partido político. Isso talvez se deva ao fato de o ex-presidente ter pretendido, na convenção partidária municipal, a escolha do candidato que concorria com João Doria e ter sido derrotado.
Dizem que perder eleição é tão ruim como levar o fora de uma mulher muito bonita. É sempre difícil deixar de dizer aquilo que está gravado no coração e talvez por isso o ex-presidente Fernando Henrique não tenha conseguido calar, preferindo dizer de público que João Doria nada mudou e só aparece bem porque manipula as redes sociais.
Essa desavença pouco proveitosa para o PSDB antecipa o que está para acontecer no Estado de São Paulo a partir de 1.º de abril do ano que vem. Nessa data o vice-governador Márcio França, político habilidoso e sem preguiça, assumirá o Palácio dos Bandeirantes, porque parece certo que Alckmin se desincompatibilizará para concorrer à Presidência da República.
Pelo que se ouve entre os peessedebistas, a inclinação do governador é apoiar Márcio França, que, já estando no cargo, certamente disputará o governo paulista. Isso pode desmanchar os planos dos chamados caciques do partido, inclusive José Serra, Aloysio Nunes Ferreira, Alberto Goldman e outros.
Ao pedir demissão do cargo de ministro das Relações Exteriores, José Serra causou a impressão de pretender candidatar-se a governador de São Paulo e isso talvez seja possível, pois seu partido terá condições de lançar candidato próprio. Mas será muito difícil para ele conseguir apoio de pessoas que não apoiou e agora estão no poder.
*Desembargador aposentado do TJSP, foi secretário da Justiça do Estado de São Paulo. 

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