sexta-feira, 7 de julho de 2017

Cláudia Costin: "Exclusão, desesperança e bodes expiatórios"

Carlos Barria/Reuters
President Donald Trump speaks at inauguration ceremonies swearing him in as the 45th president of the United States on the West front of the U.S. Capitol in Washington, U.S., January 20, 2017.
O presidente americano, Donald Trump


Li com surpresa e atenção "Hillbilly Elegy", primeira obra de J. D. Vance. Foi-me recomendado por um amigo que cursa o doutoramento em Harvard, quando falamos dos eleitores do presidente americano.

A obra, de fato, traz elementos que nos permitem entender a cultura dos trabalhadores (e desempregados) brancos de Estados que tiveram importante papel na eleição de Trump.

O autor escreve com conhecimento de causa, ele mesmo nascido numa família que partira de um Kentucky sem oferta de trabalho para se instalar em Ohio, em busca de um futuro melhor.

Mas, com a migração, os avós de Vance trouxeram com eles seus valores, muito centrados em desconfiança de estranhos, resolução direta (e violenta) de conflitos e desconfiança de políticos ou de meios legais de arbitragem. E é nesse ambiente que o autor cresceu, enfrentando um séquito de padrastos e a adição da mãe, até que foi resgatado pela avó, que assumiu sua criação.

A maior parte de seus amigos não concluiu o ensino médio e passou o tempo entre empregos temporários mal pagos e instáveis. Ele, por contra, teve a oportunidade de cursar direito em Yale.

O que mais chama a atenção no livro é o que o psicólogo da Universidade de Pensilvânia Martin Seligman chama de desesperança aprendida: um estado mental em que, dadas as frequentes exposições a adversidades, o indivíduo não consegue mais evitá-las e chega até a inconscientemente procurá-las.

Essa desesperança vem de várias fontes, no caso das histórias narradas no livro, entre elas o desemprego que resulta da automação ou do fechamento de empresas, mas também da exclusão, numa sociedade em que o valor de um indivíduo se relaciona aos bens que ele pode adquirir.

Sem dúvida a desigualdade e a exclusão têm importante papel na construção de sentimentos que afundam ainda mais as atuais vítimas da sociedade, num ciclo em que saídas para a situação são não apenas muito difíceis mas acabam sendo também evitadas, numa certa autoproteção contra sofrimentos previsíveis. E é nesse contexto que bodes expiatórios são buscados: o problema são os imigrantes, os políticos, os judeus ou os muçulmanos.

As soluções apresentadas? Políticos que se dizem não políticos, movimentos de resgate da honra nacional ou guerras que possam nos unir contra inimigos externos. A história é rica de episódios que tentaram mobilizar o ressentimento de excluídos para o alvo errado, sempre com resultados desastrosos para todos.

Nesse contexto, a saída real é uma educação de qualidade, que crie oportunidades para todos e nos ensine a não cometer os mesmos erros do passado.

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