quinta-feira, 6 de julho de 2017

"A derrota das campeãs nacionais", por Adriano Pires

O Globo

Dirigentes da JBS se aproveitaram das benesses da política dos campeões nacionais para fazer a empresa crescer por meio de doping



Uma das principais características da política econômica adotada nos governos do PT foi a ideia de criar as empresas campeãs nacionais. Essas empresas teriam a missão de se transformar em espécies de multinacionais brasileiras e conquistar o mundo dentro da lógica megalomaníaca e intervencionista que prevaleceu no pais durante os 13 anos petistas. Dentre as empresas que representam essa vertente estão a Petrobras e a JBS.

A Petrobras começa a sua trajetória de se transformar numa campeã nacional com o anúncio do pré-sal, seguido em 2010 com a aprovação da Lei da Partilha e a capitalização da empresa. A descoberta do pré-sal foi vista pelo governo do PT como a possibilidade da volta do monopólio da Petrobras, transformando a estatal num instrumento de um grande projeto político que manteria o partido durante anos no poder. Algo semelhante ao que ocorre na Venezuela e em alguns países africanos. Dentro dessa lógica, o modelo de partilha da produção trazia a obrigatoriedade de a empresa atuar como operadora única e deter, no mínimo, 30% de participação nos campos do pré-sal que viessem a ser leiloados.

Essa ação não só ampliou o monopólio da Petrobras, como transformou a empresa num monopsônio, dado que a companhia tornou-se, praticamente, a única compradora da indústria de fornecimento de bens e serviços para o setor de óleo e gás.

Essa grande estrutura gerida sob pesada interferência do Estado e aliada a uma política de conteúdo local, que estimulava a reserva de mercado, criou o ambiente perfeito para uma conjuração entre partidos políticos, dirigentes da Petrobras e as empresas fornecedoras. O resultado foi o expressivo endividamento da Petrobras, a ocorrência dos crimes de corrupção revelados pela Operação Lava-Jato, uma industria parapetrolífera brasileira pouco competitiva e dependente do mercado doméstico e a perda de valor, e mesmo a quebra, das empresas que fazem parte de toda a cadeia de valor da indústria de óleo e gás no Brasil.

A JBS se transformou, durante o governo do PT, numa campeã nacional turbinada por empréstimos e mesmo participação societária do BNDES. Seus dirigentes se aproveitaram das benesses da política dos campeões nacionais para, através de um processo de doping, fazer crescer a empresa, transformando-a na maior produtora de proteína animal do mundo. Da mesma forma que a Petrobras, a JBS se tornou, praticamente, num monopólio e monopsônio. A crise que a empresa passa devido à Operação Carne Fraca e ao seu envolvimento no episodio da delação premiada do seu principal executivo está levando, também, a uma crise em toda a cadeia da indústria da carne no Brasil.

Há lições que precisamos aprender em relação à política dos campeões nacionais. No caso da Petrobras, o governo, seu acionista majoritário, precisa entender, de uma vez por todas, que a empresa não é 100% estatal, e sim uma empresa de economia mista. Nesse sentido, é preciso virar definitivamente a página de usar a empresa como instrumento de política econômica e para atingir projetos políticos. Devíamos ter a coragem de discutir a privatização da empresa.

No caso da JBS e de outras empresas que foram escolhidas para serem campeãs nacionais, o aprendizado é não usar um banco com as características do BNDES para turbinar empresas que teriam totais condições de irem ao mercado financeiro privado. E sim usar mais o S do banco para dar financiamento a áreas da infraestrutura tao carentes de investimento, como o saneamento.

Adriano Pires é diretor do Centro Brasileiro de Infra Estrutura


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