sábado, 10 de junho de 2017

Alexandre Schwartsman: ‘País corre o risco de reviver os últimos momentos de Dilma’

Douglas Gavras - O Estado de S. Paulo


Para o ex-diretor do Banco Central Alexandre Schwartsman, o governo de Michel Temer corre o risco de colocar a sobrevivência do presidente no cargo acima da recuperação da economia. Segundo o economista, o País pode vir a reviver, daqui para a frente, os últimos momentos de Dilma Rousseff no poder: um governo cujas contas não fecham e que não tem força para desatar os nós das despesas públicas. A seguir, trechos da entrevista ao Estado.

 
  Foto: GABRIELA BILO | ESTADAO CONTEUDO



Há pouco mais de uma semana, finalmente pudemos comemorar um resultado positivo para o PIB, de 1% no primeiro trimestre. Na ocasião, o presidente chegou a dizer que a recessão havia acabado. A recessão acabou?
Certamente, isso não basta. É preciso ser um pouco mais frio a esse respeito. Ninguém vai lamentar um resultado positivo, mas o que trouxe crescimento foi um desempenho extraordinário da agricultura. Quando se olha para o lado da demanda, é uma história que ainda vai muito para o lado externo, aumento das exportações líquidas, aumento de estoque, o consumo está ficando um pouco menos negativo, mas o investimento vai muito mal. Vejo o resultado do primeiro trimestre mais como um sinal de estabilização. É preciso mais do que ficar pertinho do fundo do poço. A partir do segundo trimestre, a perspectiva é que o País dificilmente irá conseguir repetir resultados nesse mesmo patamar. O lado bom dessa história é que temos muitas indicações de que a economia chegou, de fato, ao fundo do poço.
Qual é o preço da crise política que será cobrado da economia?
A crise política deixou o horizonte de recuperação da economia um pouco mais distante. A mecânica da recuperação vinha daquelas sinalizações de reformas do lado fiscal, com adoção do teto de gastos e ajustes na Previdência. O ambiente de antes apontava para a sociedade que o governo colocaria as contas públicas em uma rota de ajuste, o que abriu espaço para o corte de juros. Quando a gente tira a reforma da Previdência dessa história, o aquecimento econômico não se sustenta no mesmo nível.
O que mudou na economia depois da gravação da JBS?
Esse governo queria ser lembrado pela história como reformista. Ficou entendido na época em que Temer assumiu que sua sobrevivência no cargo dependeria do desempenho da economia, do rearranjo das contas e da volta do crescimento. Agora, mesmo que ele fique na cadeira, o presidente deverá se dedicar à sua sobrevivência, o que necessariamente deve acabar colocando a agenda econômica, ainda carente de cuidados, em segundo plano. O governo Temer fez mais do que se imaginava em um ano, mas essa situação mudou. Ainda é preciso desatar o nó das contas públicas do Brasil. O risco é voltarmos agora para o mesmo dilema do fim do governo da ex-presidente Dilma, um governo com contas que não fecham e sem força para resolver os problemas.
Quanto tempo os frutos do ajuste econômico resistirão ao agravamento da crise política?
Acho que o que foi feito de ajuste não aguentaria muito em um ambiente de paralisação severa do governo, porque não haveria como levar adiante a questão reformista. Isso parece claro. No curto prazo, não tem nenhum grande impedimento para o Banco Central continuar cortando juros, o que é ótimo, mas temos um problema em mãos. Há um teto de gastos que diz que a despesa tem de cair, ano após ano, e uma despesa que representa 45% do total de gastos. A Previdência vai continuar sendo a maior despesa do governo e continua crescendo, enquanto o conjunto das despesas tem de cair. Essa conta não fecha.
O que é mais preocupante?
Esse governo apresentou uma série de reformas, mas ninguém foi às ruas discutir a reforma da Previdência. A população, de maneira geral, tem estado ausente do ajuste econômico – e ninguém perguntou para as pessoas se elas gostavam das reformas que foram propostas. É um programa de grande impacto e importância, mas que veio de cima para baixo. A questão é que no ano que vem as forças políticas tradicionais estarão destruídas. Lembra um pouco o momento pelo qual a França acabou de passar. Lá, os partidos tradicionais estavam combalidos e abriu-se espaço para um movimento centrista. No caso dos franceses, evitou-se o pior resultado, de uma guinada radical na política e na economia. Mas as alternativas que começam a aparecer no Brasil para o ano que vem dificilmente irão se comprometer com um programa de ajuste econômico como o que estava em marcha.
Mesmo entre os partidos que hoje compõem a base aliada?
É difícil achar alguém que defenda esse tipo de ideia no Brasil, porque são propostas que ainda não encontram qualquer eco na população. O PSDB foi colocado no espectro assim. Em qualquer lugar do mundo não seria, mas a pessoa que vier com o discurso liberal no Brasil tem chance zero de se eleger. Os políticos, em geral, tendem a falar de ajustes quando a água começa a subir, não costuma ser um discurso para anos de eleição.
Com todo esse contexto de incerteza, o mercado reage com serenidade. Isso não é curioso?
Acho surpreendente não ter piorado tanto quanto poderia piorar. A piora de humor seria muito bem fundamentada. Eu não tenho uma visão tão tranquila quanto o mercado do que está acontecendo. Aparentemente, aquela onda inicial de renúncia parece ter passado. Agora, com a decisão do TSE, ele continua como presidente e a crise vai sendo empurrada, enquanto ele luta pela sobrevivência. O foco não estará nas reformas, a trabalhista deve passar, mas a Câmara já tinha dificuldades de aprovar a da Previdência mesmo antes do escândalo Joesley. A gente agora já fala que se passar a idade mínima está bom. Mas não está.
Qual é o horizonte para 2018?
O País pode acabar voltando atrás nessa história do teto dos gastos públicos. A fragilidade institucional do Brasil ainda permite que algum aventureiro apareça no ano que vem para nos levar para um outro caminho. Falar de controle da inflação, de crescimento responsável, de juros ainda vai ser um grande problema para qualquer candidato.

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