quinta-feira, 25 de maio de 2017

Reunião do PSDB expõe racha sobre apoio a Temer

Pedro Venceslau, Adriana Ferraz, Renan Truffi e Vera Rosa, O Estado de S.Paulo


A reunião da bancada do PSDB na Câmara, nesta quarta-feira, 24, expôs a divisão do partido em relação à permanência no governo de Michel Temer. Traçou ainda uma espécie de cronograma para o desembarque, caso a situação do presidente se agrave ainda mais. Na tentativa de segurar o racha, o presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), disse que a decisão final será tomada de “forma conjunta”, ouvindo governadores, prefeitos, senadores, deputados e ministros do partido. O grupo conhecido como “cabeças pretas”, no entanto, formado por jovens parlamentares do baixo clero, pressiona fortemente a cúpula da sigla a entregar imediatamente os cargos tucanos na administração.
Tasso Jereissati
O presidente interino do PSDB, senador Tasso Jereissati (CE), durante pronunciamento na tribuna do Senado, no dia 23 de maio Foto: Nilton Fukuda/Estadão
A portas fechadas, uma parte da bancada na Câmara disse que o PSDB não podia “morrer abraçado” a Temer. “Foi uma terapia de grupo. Entreguei na mão de Deus. A sustentação (do governo) é dele, não pode ser nossa”, resumiu o deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR), numa referência a Temer.
Outra adesão ao movimento separatista veio do deputado Carlos Sampaio (SP), vice-presidente jurídico do partido. “Penso que ser responsável com o País, hoje, é pensarmos imediatamente, de forma equilibrada e serena, numa transição que respeite o regramento constitucional. O presidente Michel Temer perdeu as condições mínimas de governabilidade”, disse o parlamentar ao Estado.
Sobre o muro. A defesa de Temer pelos tucanos, porém, já não é mais tão enfática. “Se o presidente Temer, por acaso, tiver de sair, será por meio da Constituição. Não nos afastaremos um milímetro dela. Vamos seguir o livrinho”, afirmou Tasso, referindo-se à possibilidade de eleição indireta no Congresso para escolher o sucessor de Temer.
Em quase três horas de reunião, o presidente interino do PSDB fez várias intervenções pedindo paciência à bancada. “Sem desconhecer os gravíssimos acontecimentos na vida pública, precisamos nos atentar para a crise que passamos, para que o País não vá à deriva”, disse Tasso, mais tarde, em entrevista. “Nossa preocupação é com a estabilidade.” Dos quatro ministros que o PSDB tem no governo, apenas o titular de Cidades, Bruno Araújo, compareceu ao encontro de desta quarta.
Sem mencionar a proposta de “solução negociada” com Temer – que se recusa a renunciar ao cargo –, o senador disse que o PSDB vai monitorar “minuto a minuto” a crise e defendeu conversas com o presidente. “Vivemos uma situação muito difícil, mas diálogo com o presidente Temer precisa haver”, afirmou.
A cúpula do PSDB avalia que o julgamento da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no próximo dia 6, pode representar o prazo máximo de “sobrevida” do governo. Diante desse cenário, os tucanos decidiram não anunciar oficialmente sua posição e aguardar os desdobramentos da crise, embora, nos bastidores, comandem as articulações que sinalizam para um cenário pós-Temer.
Nessas conversas, até mesmo o perfil do próximo presidente é traçado. Na lista dos atributos do possível sucessor do presidente estão a obrigatoriedade de filiação partidária, compromisso com as reformas e não ser investigado pela Lava Jato.
Ala jovem. Em outra frente, jovens lideranças do PSDB que ganharam força nas eleições municipais do ano passado também pressionam pelo rompimento do PSDB com a gestão Temer “Não faz mais sentido continuar apoiando o governo Temer.”, disse ao Estado o prefeito de São Bernardo do Campo (SP), Orlando Morando.
Ele distribuiu vídeo com sua posição em um grupo de WhatsApp do PSDB. A iniciativa repercutiu na reunião da bancada. Outro nome “cabeça preta” que pede abertamente a renúncia de Temer é o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan. “Há um desejo da base do PSDB, de prefeitos, vereadores, deputados estaduais e alguns federais de sair da base do governo”, disse o tucano.
Os diretórios estaduais do PSDB no Rio Grande e Rio de Janeiro se posicionaram pela saída do PSDB do governo. O diretório de São Paulo ameaçava seguir o mesmo caminho, mas foi contido pelo governador Geraldo Alckmin, que está afinado com a cúpula nacional do partido.

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