quarta-feira, 24 de maio de 2017

"Que tal a gente falar sério?", por Fernão Lara Mesquita

O Estado de São Paulo


Se não estava antes, agora a alternativa ficou absolutamente clara: ou vamos com os políticos que temos, bem ou mal, mas participando do jogo, ou vamos de fato consumado em fato consumado, a reboque de juiz que ninguém elegeu.
Os últimos dias têm sido uma avalanche de “pela primeira vez na história deste país” e desta Lava Jato. Em menos de 24 horas, no grito, os 2ésleys entregaram um Congresso Nacional destruído, todas as reformas abortadas, todas as alternativas ao lulismo moídas e o homem que fez deles “campeões mundiais” escondidinho incólume num canto. E levaram direto pra Nova York a indulgência plenária para todos os crimes que confessaram rindo e mais um bolaço de dólares do país que destruíram.
Tudo anda sempre um passo adiante dos fatos. Nem um minuto de prisão. Os “furos jornalísticos” agora chegam junto com suas próprias repercussões, devidamente “precificados” e faturados. A mãe de todas as “ações coordenadas” pela PGR “foi espontânea” e deu-se antes que o seu agente “undercover” mostrasse o valor de suas confissões. O tal “favor comprado ao Cade” por uma mala de dinheiro com entrega filmada não foi de fato entregue pelo Cade. Também este pagaram adiantado. A prova colhida pelo bandido já estava aceita pelos mocinhos antes mesmo de ser registrada. Só seria revelada inteira depois que ele já estivesse seguro em Nova York (com o “gravador n.º 2” que até ontem não existia no bolso). Quem negocia o acordo de leniência dos 2ésleys com o procurador-geral da República é o pupilo dileto do próprio procurador-geral da República, que, um dia antes da perfídia no Jaburu, desiste, no auge da carreira, do cargo de promotor federal com que sonha todo concurseiro e vira advogado de defesa. Entregaram à vista, aos 2ésleys, a impunidade provisoriamente suspensa que estão entregando a prazo (curto e barato, diga-se de passagem) a todos os demais. Isso aí tem de ter regra. Não pode ser assim, ao gosto do freguês...
Nada, enfim, nessa história deixa de ser sombriamente obscuro. A quem interessa essa pressa toda? Nem que não custasse senão Michel Temer isso podia ser engolido como está. Mas vai custar muito mais do que podem pagar um país em frangalhos e seus 30 milhões de desempregados e subempregados. Vai custar muito mais do que pode suportar um esboço de democracia no limiar do colapso irreversível.
Agora ao segundo andar.
1.829 candidatos bancados! São quatro Odebrechts de 450 candidaturas! E cada enxadada é uma minhoca. Não existe “não”. Dinheiro fácil. É meio bilhão que sai do caixa e não faz falta nenhuma.
Não, não é um problema da raça, é um problema do “sistema”. Um filtro de seleção negativa. Quem não tem estômago pra isso não entra para a política nem pode concorrer a “campeão nacional”, por mais craque que seja. O resto o tempo faz.
Propina”? Muitas vezes é. Caixa 2 acaba sendo quase sempre porque eleger-se em circunscrições eleitorais de dimensões continentais custa muito mais do que a lei permite de caixa 1. Quem usa o termo “propina” como sinônimo de todo financiamento de campanha está fazendo o jogo dos ésleys: querendo chapar todo mundo por baixo. A esta altura do campeonato, aliás, o político, o jurista, o jornalista, todo mundo que faz cara de vestal escandalizada quando aparece a olho nu tudo o que sempre se soube que é a regra, ou é otário ou está fazendo o jogo dos ésleys. Pior fica quando podres poderes inteiros fazem cara de vestal escandalizada e avançam uns sobre os outros em nome da moral e dos bons costumes que não exigem de si mesmos.
Que tal a gente falar sério?
Não dá pra transitar dentro desse sistema “apelegado” sem se corromper. Não adianta sonhar com justiça enquanto houver cinco diferentes, com um monte de instâncias de recursos cada uma. Isso só existe para poder ser ordenhado. Não dá pra sonhar com funcionalidade e sobrevivência do emprego na competição global com uma lei trabalhista canalha e uma Constituição de 250 artigos e 80 emendas. Essa minúcia só existe para ser ordenhada. Não dá pra falar em cidadania sem falar em federalismo; em democracia representativa com Fundo Partidário e horário gratuito. E, principalmente e antes e acima de tudo, enquanto existir dentro do território nacional uma área onde pondo um pé uma vez o sujeito não precisa nunca mais entregar resultados, nem temer perder o emprego, nem mesmo ter medo da lei, o Brasil não tem salvação. Nem com 1 milhão de leis anticorrupção e o Exército americano inteiro sinceramente empenhado em impor o seu cumprimento.
Foi nesse vespeiro que o Temer mexeu. O Temer é o Temer. Mas apostou tudo em dar a primeira lancetada nesse furúnculo e estava na bica de conseguir. É isso, e não o resto, que incomodou. O Brasil inteiro está careca de saber disso. Por isso faz questão de se pôr sistematicamente fora dessas “ruas” falsificadas que andam por aí.
Só existe um jeito certo de organizar uma sociedade. Funciona no Oriente e no Ocidente, de polo a polo. Igualdade perante a lei, fidelidade da representação e, principalmente, “cobrabilidade” do representante pelo representado sem intermediários são os seus fundamentos inegociáveis. Em todos os tempos e em todos os lugares os políticos servem não a quem tem o poder de eleger, mas a quem tem o poder de deseleger.
O Brasil que não é do mal precisa se decidir se quer mesmo ser do bem. Temos de viabilizar um meio de sair disso com os políticos que temos. Criar um caminho para quem queira mudar de lado. A adesão formal a um compromisso avalizado pelo mandato de adoção de uma lista mínima de princípios universalmente consagrados da democracia a ser implantados num prazo curto, terminando na transmissão do poder de decisão final ao povo, com recall e referendo sem mutretas na regra de legitimação.
Pôr o País sob nova direção é a reposta. Ficar no meio do caminho é ficar desse jeito que estamos.

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