terça-feira, 23 de maio de 2017

Netflix revela nova grade; segundo estudo, hábitos diferem dos da TV

Divulgação
O ator Aziz Anzari em cena da segunda temporada de 'Master of None', série original da Netflix
O ator Aziz Anzari em cena da segunda temporada de 'Master of None', série original da Netflix


Nelson de Sá - Folha de São Paulo

A Netflix, hoje em cerca de 200 países e atraindo concorrentes como Globo e Amazon, fez um levantamento para identificar a grade de programação de seus usuários –e no que ela se diferencia e se aproxima do que se vê na TV há mais de meio século.

Os dados apontam para um impacto nos hábitos muito além do "binge" (ver uma série sem parar). Em entrevista, Anne Trench, diretora de consumo global da Netflix, diz que várias características da nova grade são globais.

Por exemplo, ao acordar, o que se vê é série cômica, não noticiário, como na chamada TV linear (aberta e paga). E à noite o horário nobre começa às 21h, após preparar o jantar e pôr as crianças na cama.

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Folha - Já existe uma nova grade estabelecida, por exemplo, com comédia pela manhã e conteúdo mais sério à noite?
Anne Trench - Com certeza, uma grade que os consumidores criaram. Quando demos a eles o poder de escolher o que e quando ver, eles fizeram as coisas de maneira diferente do que você vê na TV linear. Uma é comédia em vez de manchetes pela manhã. Eles querem começar o dia com programação mais engraçada. E no meio da noite encontramos uma audiência mais ativa do que seria de esperar, se nos baseássemos no que a TV apresenta. Não é mais assistir de modo desatento, mas conteúdo que demanda atenção, coisas como documentários ou, no caso do Brasil, thrillers.

Mas isso ainda pode mudar.
Sim, as coisas vão mudar quando eles quiserem. Nós certamente esperamos que o comportamento mude com o tempo. O melhor é que está nas mãos deles alterar seus hábitos. Não temos que reprogramar nossa grade conforme mudarem os estilos de vida.

A grade se replica ao redor do mundo. O que isso significa? Uma verdadeira aldeia global?
Muitos dos comportamentos são similares no mundo todo, caso da comédia pelas manhãs e dos documentários no meio da noite. Também o drama durante o dia, mais ou menos na hora do almoço, mantendo ativo seu "binge". Não foi surpresa, porque nos últimos anos já víamos que os espectadores são parecidos. Daí lançarmos nossos programas ao mesmo tempo, porque sabemos que brasileiros, australianos e noruegueses não querem assistir semanas depois. Quando sai uma série, eles querem ser parte dessa conversa de corredor mundial.

Mas há diferenças.
Sempre há diferenças interessantes por país. O Brasil é o líder mundial na hora do almoço. Faz sentido, quando você olha certos comportamentos culturais, mas não era o que esperávamos, necessariamente. Existe, portanto, esse equilíbrio entre as similaridades globais, porque somos humanos e muitas das coisas que nos levam a rir ou a ter medo são as mesmas, e as especificidades locais, de culturas com diferentes preferências e seus próprios rituais.

O Brasil tem sido laboratório para a Netflix há cinco anos. Quais são as suas características mais significativas? Por que os brasileiros ficam vendo séries até três da manhã?
[Ri.] Bem, responda você, que mora no Brasil. Eu diria que os brasileiros amam seu entretenimento. É uma população socialmente muito engajada, ou seja, para nós significa que vocês não conseguem parar de ver um programa que estejam amando. Querem ver o que acontece na sequência para, quando forem trabalhar ou estudar, serem parte da conversa. Notamos que isso é realmente importante para os brasileiros.

E os "animes"?
São as nuanças demográficas. "Anime" é realmente popular no Brasil. Sabemos que o país tem uma grande população de origem japonesa. Não pusemos mais animações para atender a isso. Foi só um resultado feliz do fato de sermos um programador global e termos uma grande oferta de "anime". E é óbvio que não são só os nipo-brasileiros que estão vendo "anime" no país.

Como a nova grade espelha a anterior, da TV? Com drama no meio do dia, a exemplo de "soap operas" e telenovelas?
Novelas, tanto nos Estados Unidos como na América Latina, sempre foram uma parte importante da audiência durante o dia. Uma diferença agora é que as pessoas estão seguindo em "binge", no meio do dia, as séries que começaram a ver no horário nobre. E telenovelas e "soap operas" de dia tendem a ser diferentes dessa programação noturna.
Outro comportamento bem similar é gente vendo ação, drama e thriller às 21h, só uma hora mais tarde do que no horário nobre da TV linear. Mas, novamente, isso pode ser importante na vida das pessoas. Pode significar ter tempo para pôr as crianças para dormir ou fazer jantar sem ter que correr para chegar na frente da TV.
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cotidiano

O que assinantes da Netflix mais assistem pela manhã, de tarde e durante a noite


CAFÉ COM HUMOR

As comédias são as mais assistidas no início do dia. Segundo a Netflix, a chance de assinantes verem uma obra de humor às 6h é 34% maior do que no restante do dia. No Brasil, a opção por comédias durante a manhã é 78% maior do que nos demais horários. Entre os programas mais vistos do gênero estão "Master of None", "Fuller House" e "Two and a Half Men"


À JAPONESA

Pela manhã e no horário do almoço, os animes recebem a sua maior audiência. Séries como "Naruto", "Bleach" e "Death Note" tem audiência acima da média entre 6h e 12h no México, na Colômbia e na Argentina.
No Brasil, o gênero é mais visto entre as 2h e as 14h


PAUSA PARA O ALMOÇO

No mundo todo, os dramas representam quase a metade (47%) da audiência do serviço entre as 12h e as 14h; "Narcos", "House of Cards" e "Grey's Anatomy" estão entre as séries favoritas. No Brasil, há uma preferência pelo meio-dia. Nesse horário, a chance de um assinante do país ver uma série é 25% maior do que no resto do mundo


FINDA O DIA

À noite, dramas com uma pitada de suspense, como "Stranger Things", "Dexter" e "Breaking Bad", estão entre os preferidos dos assinantes. A busca por títulos desse gênero tem, no mundo, um aumento de 27% por volta das 21h. Esse horário se estende até as 3h no Brasil


CORUJÃO

Logo antes de dormir, contudo, a busca é por séries mais leves ou com mais humor, caso de "Friends", "That '70s Show" e "BoJack Horseman".
Já as madrugadas são destinadas a documentários como "Chef's Table", "Making a Murderer" e "Planet Earth" –o gênero tem um aumento de 24% 

nesse horário. No mundo, 15% dos assinantes veem alguma série entre meia-noite e 6h, mas no Japão e na Coreia esse número sobe para 21%.

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