quinta-feira, 18 de maio de 2017

Em gesto desesperado, presidente coloca suas últimas fichas na mesa

Igor Gielow - Folha de São Paulo


Michel Temer (PMDB) apostou no tudo ou nada com seu "dia do fico", que pode ou não ter 24 horas de duração. O presidente foi incisivo como talvez nunca tenha sido antes em sua defesa, mas os comentários de aliados que o assistiam pela TV deixavam claro que talvez ele não tenha sido exatamente convincente.

Temer basicamente tenta ganhar tempo. Diz que vai se defender no STF (Supremo Tribunal Federal), que abriu inquérito para averiguar sua conduta na notória gravação em que aparece incentivando o que chama de "auxílio" a alvos da Lava Jato que ameaçavam fazer delação premiada, como o ex-todo-poderoso Eduardo Cunha.

Como se sabe, as coisas andam devagar no Supremo. Aliados de Temer afirmam que o governo irá fazer de tudo para tentar avançar votações importantes de reformas no Congresso enquanto o presidente vai sendo tostado em fogo médio pela corte suprema.

Difícil é imaginar um Parlamento sob pressão total votar justamente pregos nos caixões eleitorais como são as reformas da Previdência e da legislação trabalhista. 

Para sorte do governo, ao menos o acerto com os Estados já havia passado antes da eclosão das gravações da JBS.

A questão é: o país aguenta tal processo? A economia, que mal e mal tenta sair da recessão, funciona na base da expectativa. E o que Temer tem a oferecer? Pelo raciocínio palaciano, as reformas em tempo recorde. Conseguirá?

Parece um jogo impossível de ser ganho, mas é o que está na praça. A ausência dos áudios, não só transcritos, é fator crucial. Uma coisa é ler um relatório interpretado, outra é ouvir o tom de voz, a imposição de sílabas, durante um diálogo. Como notou um observador, Temer jogou tudo na avaliação de uma prova que ninguém viu, desafiando o STF a abrir suas cartas. Fosse um jogo de pôquer, ele teria apostado todas suas fichas.

Blefe ou não, ganhando ou perdendo a rodada, a crise não irá ceder tão facilmente.


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