terça-feira, 18 de abril de 2017

João Santana diz que Lula, ‘fragilizado’ no Mensalão, pediu sua ajuda e Palocci o apresentou à Odebrecht

Fausto Macedo, Ricardo Brandt e Julia Affonso - O Estado de São Paulo

Marqueteiro relata ao juiz Sérgio Moro que, em agosto de 2005, recebeu ligação de Gilberto Carvalho para ir a Brasília conversar com o então presidente que o encaminhou ao ministro da Fazenda, que informou que valores seria pagos via caixa 2


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O publicitário João Santana relatou ao juiz federal Sérgio Moro nesta terça-feira, 18, que em agosto de 2005 encontrou no Palácio do Planalto o então presidente Lula ‘muito fragilizado’ em meio à crise do Mensalão – escândalo que abalou o primeiro mandado do petista e levou para a cadeia alguns de seus próximos aliados. Santana revelou que foi chamado por Lula e, em seguida, encontrou-se com Antonio Palocci, então ministro da Fazenda, que o ‘apresentou’ à Odebrecht para receber recursos não contabilizados no exterior.
“Quando ocorre a crise do Mensalão, eu recebi um telefonema, eu me recordo a data, dia 20 de agosto de 2005, Gilberto Carvalho (então assessor especial de Lula) chamando a pedido do presidente Lula que fosse a Brasília, porque aquele problema estava acontecendo, se eu podia ir”, contou o marqueteiro ao ser interrogado na ação penal em que é réu por lavagem de dinheiro ao lado da mulher, Monica Moura, e do ex-ministro Antonio Palocci, ex-homem forte do governo Lula.
“Cheguei a Brasília no dia 24 de agosto de 2005, eu me lembro porque é uma data histórica, é a morte de Getúlio (Vargas, ex-presidente, morto em 1954). Fui levado inicialmente para casa de Antonio Palocci, que era ministro da Fazenda, para aguardar, isso à tarde. Fiquei ali até que depois o Palocci veio e fomos até o Palácio do Planalto para conversar com o presidente Lula.”
“Cheguei e encontrei ele muito fragilizado e ele me convidou se eu poderia ajuda-lo nesse momento, nessa coisa. Eu disse que sim. Ele nesse momento disse: ‘olha, qualquer detalhe mais burocrático, depois o Palocci conversa com você’. Isso foi ainda em 2005, 24 de agosto, o presidente tinha dúvidas ainda se seria candidato (à reeleição).”
Santana reconstituiu como foi a conversa com Palocci. “Nessa noite falou comigo e falou: ‘depois conversamos sobre isso, veja como quase um convite para você fazer a campanha do próximo ano, mas ainda é indefinida, depende do que acontecer, mas você pode ajudar nesse período’.”
“Eu falei para ele: ‘Olha Palocci, tudo bem, o que eu imagino é que vocês estão vivendo uma crise muito profunda, por causa de financiamento ilegal de campanha e que não se repita o mesmo erro’.”
Ao que Palocci teria dito. ‘Nesse período nós fazemos algum contrato de prestação de serviço.’
“Eu disse, qualquer coisa você conversa com Monica, porque Monica tinha uma relação anterior, porque no ano anterior, tínhamos feito uma campanha em Ribeirão Preto (SP).”
Caixa 2. Posteriormente, Santana disse que voltou a falar com Palocci e foi comunicado que teria que receber via caixa 2.
“Ele (Palocci) conversa comigo e diz: ‘olha, infelizmente não vai poder ser tudo com recurso contabilizado por causa das dificuldades naturais, por causa da cultura existente, mas nós temos uma empresa que dá total garantia para realização, para fazer um pagamento.”
“Que empresa é?”, perguntei a ele.
“Você deve conhecer, você é baiano, Odebrecht”, respondeu Palocci, segundo o marqueteiro contou a Moro.
O ex-ministro Antonio Palocci. Foto: André Dusek/Estadão
O ex-ministro Antonio Palocci. Foto: André Dusek/Estadão
João Santana disse ter ficado receoso porque em 1992, quando trabalhava na revista Isto É, fez reportagem que teria provocado desconforto na empreiteira sobre o assassinato do governador do Acre Edmundo Pinto, em um hotel em São Paulo.
“Em 1992 eu estava na Isto É, acontece o assassinato do governador do Acre Edmundo Pinto, fiz matéria muito forte sobre isso, onde eles próprios (Odebrecht) se queixaram porque escrevi que na véspera do assassinato pessoas da Odebrecht estavam no hotel com ele.”
Palocci disse, ainda segundo João Santana. “Agora querem pagar isso lá fora, só querem pagar. Você tem conta prá receber lá fora?”
“Eu digo: tenho porque eu tinha uma conta aberta em 1999, praticamente inativa. Qualquer detalhe conversa com Mônica. A partir daí Mônica passa a coordenar essa operação.”
O marqueteiro do PT afirmou que os valores recebidos por ele, parte na conta da offshores Shell Bill Finance, que ele mantinha na Suíça, e parte em dinheiro vivo no Brasil, pagos pelo setor de propinas da Odebrecht, também eram de outras campanhas.
Prática. O marqueteiro, que chegou a ser preso em fevereiro de 2016 e solto em agosto, após iniciar negociação de delação, junto com a mulher e sócia Mônica Moura, disse que o caixa 2 é uma prática comum no mercado de marketing político.
“Houve recebimento de pagamentos não contabilizados?”, quis saber Moro.
“Houve, constante, aliás como é uma prática no mercado de marketing político eleitoral, no Brasil e em boa parte do mundo.”
“Houve pagamento não contabilizado proveniente do Grupo Odebrecht?”, perguntou o magistrado.
“Sim, sim, bastante.”
Santana e a mulher, Monica Moura, são réus nesse ação penal pelo recebimento de caixa 2 da Odebrecht, em nome do PT.
Os valores estão registrados sob o codinome “Feira”, que identificaria Santana no Setor de Operação Estruturadas da Odebrecht. Os valores saíram da conta “Italiano”, que era o codinome do ex-ministro Antonio Palocci, apontado pelos delatores da Odebrecht como interlocutor do PT e da Presidência com o grupo para acertos de caixa 2.
Tesoureira. A mulher e sócia Mônica Moura era quem cuidava da contabilidade do casal de marqueteiros do PT. Segundo ela, era acertado com os executivos do setor de propinas da Odebrecht os recebimentos.
“A gente fazia uma programação de pagamento, de como seria. Eu fazia com alguém da Odebrecht, normalmente com Fernando Migliaccio ou com Hilberto (Mascarenhas). A gente fazia uma programação de pagamento em dinheiro ou nessa conta de x parcelas de tanto. Nem sempre dava certo, na maioria das vezes não dava certo. Ficava muita coisa para pagar depois.”
“Quase toda as campanhas eu recebi no ano seguinte da Odebrecht o valor correspondente. Alguma coisa no mesmo ano e uma grande parte no ano seguinte.”

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