segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Dinheiro que seria de propina para Petrobras foi alvo de assalto em 2011

Raquel Landim - Folha de São Paulo


Já passava das 11 horas da manhã quando João Bernardi Filho deixou a agência do Citibank na rua da Assembleia, em frente ao Largo da Carioca, no centro do Rio. Da porta da agência, é possível avistar a sede da Petrobras, a torre do BNDES e o convento de Santo Antônio.

Naquele 5 de outubro de 2011, Bernardi, que trabalhava para a Saipem, fornecedora de equipamentos de petróleo, rumou para a Petrobras, a poucos metros dali. Ele carregava uma valise com R$ 100 mil. Segundo o Ministério Público Federal, o dinheiro era propina a ser entregue para o então diretor de Serviços, Renato Duque.

Duque, indicado para o cargo pelo ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, receberia o pagamento por favorecer a Saipem em uma licitação da Petrobras, para a instalação de um gasoduto submarino. O valor do contrato chegou a R$ 249 milhões.

Bernardi cruzou o Largo da Carioca, passando diante de uma cabine da PM. Virou à direita, atravessou um portão, subiu degraus e caminhou em direção à entrada do BNDES. Bastava virar à esquerda e atravessar a passarela sobre a rua Chile para chegar à Petrobras. Mas seu caminho foi interrompido por Fernando Lourenço Lopes.

O jovem de 27 anos apontou uma pistola em direção ao executivo. Ele também rendeu o segurança do BNDES, que tentou reagir. O ladrão pegou a mala de Bernardi e correu.

Em depoimento, o policial Marcelo Soriano disse ter visto Lopes correndo com a arma pelo Largo da Carioca e saiu em seu encalço, ordenando que parasse.

O ladrão olhou para trás e apertou o gatilho, mas a arma travou. Fugiu em direção à avenida Rio Branco e quase conseguiu escapar, mas foi atingido por um tiro na perna, disparado por outro PM. Quando o jovem caiu, R$ 47 mil do dinheiro que tinha roubado se espalharam pelo chão do Largo da Carioca. O restante desapareceu.

Ele foi levado ao interior da cabine da PM no meio da praça. Segundo a versão dos policiais, teria oferecido R$ 50 mil para não ser preso. No caminho do hospital, para se tratar do ferimento na perna, aumentou a oferta para R$ 200 mil –mais do que Duque levaria para fraudar o contrato milionário. Conforme o processo, os policiais não aceitaram o suborno.

Na época, Bernardi disse que o dinheiro era fruto de empréstimo que acabava de ser pago. Sua defesa nega que o dinheiro fosse propina. Duque tem negado a prática de crimes.

Refeito do susto, Bernardi esteve com Duque no dia seguinte, na Petrobras, conforme mostram os registros da portaria. Os procuradores acreditam que ali ele finalmente entregou a propina.

Bernardi deu queixa contra o ladrão, que foi condenado a nove anos de cadeia.
A sorte da vítima e do ladrão do roubo do Largo da Carioca virou no início do ano passado. A Polícia Federal deflagrou a Operação Lava Jato, revelando uma esquema de corrupção na Petrobras e levando à prisão de Duque.

Enquanto isso, Lopes trabalhava na prisão para reduzir a pena. Conseguiu migrar para o semiaberto e, em junho de 2014, recebeu autorização para visitar a família. Numa dessas saídas, nunca mais voltou e está foragido.

No caso de Bernardi, o roubo dos R$ 100 mil colaborou para as suspeitas dos procuradores sobre o que motivava as visitas dele à Petrobras.

Ele foi preso em junho deste ano, acusado de corrupção, lavagem de dinheiro e ocultação de bens. Aguarda a conclusão do processo na cadeia em Curitiba.

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