Blog Rodrigo Constantino - Veja
Fonte: GLOBO
Países mundo afora
vivem em guerras civis, com sangrentas disputas pelo poder em regimes
autoritários, em que a democracia ainda não deu o ar de sua graça. É o caso da
Síria. Mas quando se trata da taxa de homicídios, a sensação que fica é que a
Síria é aqui mesmo. O Brasil registrou em 2012 a maior quantidade de assassinatos, tanto em
termos absolutos como relativos, desde 1980:
Nada menos do que 56.337 pessoas foram mortas naquele
ano, num acréscimo de 7,9% frente a 2011. A taxa de homicídios, que leva em
conta o crescimento da população, também aumentou 7%, totalizando 29 vítimas
fatais para cada 100 mil habitantes. É o que revela a mais nova versão do Mapa
da Violência, que será lançada nas próximas semanas com dados que vão até
2012.
O levantamento é baseado no Sistema de Informações de
Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, que tem como fonte os atestados de
óbito emitidos em todo o país. O autor do mapa, o sociólogo Julio Jacobo
Waiselfisz, diz que o sistema do Ministério da Saúde foi criado em 1979 e que
produz dados confiáveis desde 1980. As estatísticas referentes a homicídios em
2012, portanto, são recordes dentro da série histórica do SIM.
— Nossas taxas são 50 a 100 vezes maiores do que a de
países como o Japão. Isso marca o quanto ainda temos que percorrer para chegar a
uma taxa minimamente civilizada — destaca o sociólogo.
O país do “homem cordial” é um tanto violento,
como podemos ver. São quase 60 mil homicídios anuais, um número assustador,
digno de uma guerra civil. Ou seja, vivemos uma guerra civil, só que oculta,
velada, disfarçada. Há um forte poder paralelo que não teme as punições legais,
que não reconhece e não respeita a autoridade estatal, a polícia.
São fortalezas do crime sustentadas pelo tráfico
de drogas e protegidas por armas ilegais de alto calibre, que entram por nossas
fronteiras que se parecem queijos suíços, de tantos buracos evidentes.
Aliás, o
aumento da taxa de homicídios coloca em xeque os defensores do desarmamento
civil, que como sempre vão se fingir de bobos para não negar o retumbante
fracasso de sua bandeira.
O aumento na taxa de homicídios ocorreu em uma
época de forte crescimento de renda, com o advento da “nova classe média”, tão
propalada pelo governo. Isso coloca em xeque outra bandeira “progressista”: a de
que a culpa da violência e da criminalidade é da pobreza, não da impunidade.
Os bandidos são cada vez mais ousados, e matam
por motivos banais, à luz do dia, pois contam com a impunidade e porque acham
que a vida não vale nada. Fazem isso com armas ilegais, ou seja, de nada adianta
desarmar a população de bem, aquela que poderia eventualmente se defender desses
criminosos.
Some-se a isso a quantidade de óbitos por
acidentes no trânsito, em boa parte causados pelo péssimo estado de nossas
estradas e também pela irresponsabilidade dos motoristas, e temos um quadro
realmente sombrio, com mais de 100 mil mortes por ano. Deixa eu repetir o número
por extenso para ver se cai a ficha: cem mil mortes por ano causadas por
assassinatos ou acidentes de trânsito.
Que país é esse? Como podemos sentir orgulho do
Brasil desse jeito? Vamos continuar enaltecendo nossa “malandragem”, nosso
jeitinho, nossa “cordialidade”, nossa “alegria”, nosso povo “pacífico”? O
brasileiro vende por aí a imagem de um povo hedonista e bonachão como os
bonobos, mas, na prática, está bem mais perto da realidade dos violentos e
agressivos chimpanzés.
Nada disso é imutável, claro. Não está inscrito
em nossos genes, nem é resultado de nosso clima. É fruto de nossa cultura
atrasada e de nossas instituições precárias. E ambas podem mudar, podem evoluir.
Mas é preciso muito esforço, e começar já, pois como podemos ver, estamos
caminhando para trás.